Os gastos públicos não são necessariamente responsáveis pela elevação dos juros e da dívida pública no Brasil. De acordo com economistas consultadas pela Agência Brasil, os juros altos pagos pela União, que somaram R$ 1 trilhão em um ano, estão pressionando a dívida do Estado, prejudicando a oferta de bens e serviços produtivos e beneficiando os bancos.
A professora Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que o principal fator de elevação da dívida pública são os juros, e não os gastos primários destinados a pagar funcionários e serviços públicos. Furno afirma que é uma hipocrisia dizer que os juros altos respondem à elevação da dívida, quando na verdade são eles que a causam.
Nos últimos 12 meses até março, o Brasil gastou R$ 1,08 trilhão com juros, representando 8,35% do PIB. A Dívida Bruta do Governo Central cresceu 1,4 ponto percentual, chegando a 80,1% do PIB. Segundo o Banco Central, o principal responsável por esse aumento foram os juros nominais.
Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que o modelo macroeconômico atual que combina altas taxas de juros com cortes de gastos primários é uma decisão política que favorece o setor financeiro. Ela critica o uso do país como uma plataforma financeira, prejudicando a população.
O endividamento das famílias no Brasil reacendeu o debate sobre os juros reais praticados no país, que são os segundos mais altos do mundo. Economistas justificam que o Banco Central reage aos gastos públicos, que teriam o poder de estimular a demanda e pressionar a inflação. A solução proposta seria o corte de gastos públicos, o que poderia afetar serviços essenciais.
A professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que a dívida pública vem aumentando devido aos juros. Ela defende que o governo deve gastar protegendo a população vulnerável e estimulando a capacidade produtiva, em vez de beneficiar apenas o setor financeiro.
Economistas que divergem da tese dominante acreditam que os gastos públicos devem ser protegidos e os juros cortados, pois favorecem mais os pobres. A inflação, segundo eles, deve ser controlada estimulando a oferta, e não apenas combatendo a demanda.
Maria Mello de Malta destaca que o Estado não pode reduzir gastos rapidamente, pois não controla as necessidades de educação, saúde e aposentadoria da população. Juliane Furno ressalta que o Estado brasileiro gasta mais devido à escolha de prover serviços públicos universais, como saúde e educação.
A tese de que cortes de gastos e privatizações resolveriam o endividamento público é questionada por Maria Mello de Malta, que vê essa visão como ideológica, favorecendo o lucro privado em detrimento do interesse público.
