Em maio de 2006, o estado de São Paulo foi palco de uma onda de ataques violentos promovidos por agentes do Estado e integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os dias 12 e 21 de maio, 564 pessoas foram mortas e 110 ficaram feridas, a maioria jovens, negros e da periferia. Esses eventos, conhecidos como Crimes de Maio, paralisaram a capital paulista e diversas cidades do estado.
Dessa tragédia surgiu o movimento Mães de Maio, formado principalmente por mães que transformaram o luto pela perda de seus filhos em uma luta por memória e justiça. O movimento tornou-se referência no combate à violência estatal e à impunidade. Débora Maria da Silva, uma das fundadoras, perdeu seu filho Edson Rogério Silva dos Santos, assassinado por policiais durante os Crimes de Maio.
Passados 20 anos, as Mães de Maio continuam a lutar para que esses crimes não sejam esquecidos nem fiquem impunes. Recentemente, o movimento, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, enviou um apelo urgente à ONU denunciando a omissão do Estado brasileiro em relação aos Crimes de Maio. As entidades destacaram que nenhuma execução foi devidamente esclarecida e nenhum agente do Estado foi responsabilizado.
A luta das Mães de Maio se estende a diversas frentes, incluindo articulação de projetos de lei e ações no Judiciário brasileiro e em organismos internacionais para responsabilização e reparação. O defensor público Antonio José Maffezoli Leite destaca a mobilização das mães como essencial para manter viva a memória desses eventos.
O movimento também busca a federalização dos casos, devido à dificuldade de avanço nas investigações e à incapacidade das polícias e do Ministério Público em apurar os fatos. A Conectas Direitos Humanos relata que muitos inquéritos foram arquivados sob a justificativa de legítima defesa, sem investigações adequadas.
Além das ações judiciais, as Mães de Maio propõem mudanças na legislação, como o Projeto de Lei 2999/2022, que visa garantir transparência e investigação das atividades policiais. O movimento também se fortalece no espaço acadêmico, com projetos como o EnfrentAção da Unifesp, que acolhe mães de vítimas de violência policial e as reconhece como pesquisadoras.
Débora Maria da Silva, agora pesquisadora do Caaf, reforça que a história das Mães de Maio é real e inalterável, sendo fundamental para a produção de conhecimento sobre a violência estatal. Gabriel de Carvalho Sampaio, da Conectas, destaca o impacto transformador dessas mulheres na construção do Estado de Direito e da democracia.
