A professora de Direito e Estudos Internacionais de Paz da Universidade de Notre Dame, Mary Ellen O’Connell, classificou o ataque militar ordenado pelo presidente Donald Trump contra a Venezuela como um grave retrocesso para a liderança global dos Estados Unidos. Executado no sábado com explosões em bairros de Caracas, o operação envolveu mais de 150 aeronaves americanas que capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em um complexo fortificado às 2h01 hora local, transportando-os para o navio USS Iwo Jima rumo a Nova York, onde enfrentarão julgamento por suposto narcoterrorismo.
O’Connell enfatizou que a ação, sem justificativa legal, representa um tapa na cara das leis internacionais e do Estado de Direito, princípio fundamental que oferece alternativas à violência e à autotutela entre nações. Ela alertou para o risco de o cenário venezuelano permanecer inalterado, com a vice-presidente Delcy Rodríguez assumindo o poder conforme determinação do Supremo Tribunal de Justiça local, mesmo após a remoção ilegal de Maduro. “Não é um triunfo claro para a democracia e, certamente, um sinal de pouco caso com o Estado de Direito”, afirmou a especialista.
Trump anunciou que os Estados Unidos assumirão o controle do país até uma transição adequada, com foco na indústria petrolera venezuelana – detentora das maiores reservas comprovadas do mundo –, prometendo forte participação de empresas americanas para revitalizá-la e gerar benefícios bilaterais. A operação, comparada a um ataque sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, incluiu desmantelamento de defesas aéreas, operações cibernéticas e captura em uma fortaleza militar no coração de Caracas, deixando mortos, destruição e medo entre a população.
Críticos veem na ação uma estratégia geopolítica para afastar a Venezuela de aliados como China e Rússia, além de controlar recursos energéticos, ecoando a invasão ao Panamá em 1989, quando Manuel Noriega foi sequestrado por narcotráfico. Washington oferecia US$ 50 milhões por Maduro, acusado de liderar o cartel De Los Soles, cuja existência é questionada por especialistas em tráfico de drogas, sem provas apresentadas.
A ofensiva gerou reações globais mistas: condenações por violação do direito internacional de líderes como Pedro Sánchez e organizações como Amnistía Internacional, que alertam para riscos aos direitos humanos; apoio de figuras como Benjamin Netanyahu e Marco Rubio, que condicionam cooperação ao governo atual a decisões adequadas. A oposição venezuelana, liderada por María Corina Machado, reagiu horas depois, afirmando estar preparada para tomar o poder, mas Trump descartou seu apoio imediato para uma transição.
O’Connell concluiu que nações que respeitam leis internacionais prosperam como líderes globais, criticando Trump por preocupar-se com Maduro – não um herói, ligado a tráfico de drogas e humanos –, mas por violar a lei em vez de fortalecê-la via tribunais corajosos. A ação, precedida de meses de tensão com designações terroristas a cartéis e alertas aéreos, pode demandar anos para que os EUA recuperem credibilidade como defensores da democracia e da paz.
