Cronologia da tentativa de golpe: atentados, bloqueios e acampamentos

# Os Três Anos que Abalaram a Democracia Brasileira

Naquela tarde nublada de domingo, 8 de janeiro de 2023, milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro marcharam pela Esplanada dos Ministérios em Brasília, cruzaram bloqueios policiais e invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. Destruindo tudo o que viam pela frente, os manifestantes reafirmavam um pedido que ecoava em segmentos extremistas da sociedade: queriam um golpe de Estado para depor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia tomado posse apenas uma semana antes, eleito democraticamente pelos brasileiros[1][2].

A invasão não foi um ato espontâneo. Segundo investigações, mais de cem ônibus vindos de todo o país, muitos oferecidos gratuitamente por empresários, chegaram a Brasília nos dias anteriores trazendo os golpistas[1]. Os invasores se juntaram a cerca de duzentos extremistas que estavam acampados em frente ao Quartel-General do Exército, aumentando o contingente para mais de quatro mil pessoas[1]. De acordo com a denúncia que prevaleceu no julgamento do Supremo Tribunal Federal, os acampamentos golpistas tiveram aval direto do então presidente da República[6].

No domingo à tarde, os invasores saíram em marcha do Quartel-General e romperam as barreiras policiais. Enfrentaram policiais armados, que em contingente insuficiente dispararam gás lacrimogêneo. Documentos posteriores indicariam que alguns policiais não agiram contra os vândalos, sendo lenientes com os invasores[1]. Os manifestantes penetraram no Congresso, no Palácio do Planalto e no Supremo Tribunal Federal, protestando contra a eleição de Lula e pedindo uma intervenção militar, o fechamento do Congresso, a prisão do presidente eleito e a retomada do poder por Bolsonaro[1].

Por volta das 16 horas, os manifestantes quebraram o vidro do Salão Verde do Congresso e entraram em conflito com cerca de sessenta Policiais Legislativos, jogando bombas, bolas de aço e jatos de água. Segundo investigações, os combatentes pareciam saber a localização de pontos-chave da estrutura, como os hidrantes[1]. No Supremo Tribunal Federal, andares inteiros foram devastados. O plenário da Corte, localizado no térreo, foi completamente destruído: vidraças quebradas, estátuas derrubadas, poltronas arrancadas e móveis despedaçados[4].

No Palácio do Planalto, o governo registrou que vândalos destruíram acervo que representa a história da República e das artes brasileiras. Entre as obras danificadas estava “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, principal peça do Salão Nobre, avaliada em cerca de oito milhões de reais[4]. Os invasores também derrubaram uma viatura da Polícia Legislativa Federal no espelho d’água do Congresso Nacional[4]. Danos também foram verificados nas sedes dos três poderes, com diversos espaços importantes extensamente depredados e saqueados, incluindo salões, plenários e gabinetes[1].

A resposta das autoridades foi lenta, mas firme. Cerca de uma hora após o início dos ataques, os prédios começaram a ser desocupados pelas tropas de cavalaria, forças de segurança que usaram sprays de pimenta e bombas de efeito moral, além de helicópteros da Polícia Federal e Militar que arremessaram bombas de gás[2]. Quase duas horas depois do início da desocupação, os manifestantes foram totalmente retirados do Palácio do Planalto e do STF[2].

No mesmo dia, o presidente Lula anunciou uma intervenção federal até o final de janeiro na área de segurança do Distrito Federal[2]. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, exonerou no mesmo dia o secretário de Segurança Pública, Anderson Torres[2]. O ministro Alexandre de Moraes ordenou a prisão de Torres dois dias depois por uma suposta omissão frente aos acontecimentos[2]. Em setembro de 2025, Torres foi condenado definitivamente a vinte e quatro anos de prisão em regime fechado[4].

Os danos materiais foram imensuráveis. Segundo estimativas das três instituições invadidas, foram necessários mais de vinte milhões de reais para cobrir os prejuízos[2]. Porém, o custo político e simbólico foi ainda maior. As imagens da depredação das sedes dos Três Poderes correram o mundo e entraram para a história como uma das páginas mais dramáticas e sombrias da trajetória da democracia brasileira[6].

A investigação dos responsáveis se estendeu pelos meses seguintes. Um balanço divulgado pelo STF aponta que no dia 8 foram presas duzentas e quarenta e três pessoas dentro dos prédios públicos e na praça dos Três Poderes[3]. No dia seguinte, mil novecentas e vinte e sete pessoas foram conduzidas à Academia Nacional de Polícia, das quais setecentas e setenta e cinco foram liberadas e mil cento e cinquenta e duas permaneceram presas[3]. Entre 17 e 20 de janeiro, ocorreram audiências de custódia e novecentas e trinta e oito pessoas permaneceram presas[3].

Em maio de 2023, foi instaurada pelo Congresso a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do 8 de janeiro. Ao longo de cinco meses, a comissão realizou vinte e duas reuniões, dezenove delas dedicadas a ouvir testemunhas[3]. A comissão ouviu vinte e um depoentes e recebeu milhares de arquivos de texto, áudio e vídeo[3]. Os vândalos podem responder por crime contra o Estado Democrático de Direito[2].

Embora não tenha participado fisicamente dos atos, o STF entendeu que Bolsonaro teve responsabilidade indireta e ativa na tentativa de golpe. Entre os pontos citados estão a incitação prévia contra o sistema eleitoral, a chamada “minuta golpista” encontrada com ex-ministro Anderson Torres e a influência de seus discursos sobre os apoiadores[4]. Em setembro de 2025, Bolsonaro foi condenado a vinte e sete anos e três meses de prisão[4].

Pesquisas indicam que mais de oitenta por cento dos brasileiros condenam a invasão aos prédios do Supremo, Planalto e Congresso[9]. Hoje, três anos depois, o Brasil segue reconstruindo não apenas os prédios vandalizados, mas também reafirmando seus valores democráticos. O Palácio do Planalto realiza anualmente uma cerimônia com autoridades e representantes da sociedade civil para reforçar os valores democráticos após a invasão[6]. O Supremo Tribunal Federal também preparou uma programação especial dentro da campanha Democracia Inabalada[6].

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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