Líderes europeus comemoram aprovação provisória de Acordo UE-Mercosul

Após um quarto de século de negociações, a perspectiva de conclusão do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul desencadeou, nesta sexta-feira, uma onda de comemorações e cautela em capitais europeias. Embora o Conselho da União Europeia ainda não tenha oficializado a assinatura, o sinal político emitido por embaixadores dos 27 Estados-membros indica que o tratado entrou em sua fase decisiva, com maioria qualificada formada para permitir o avanço do processo.

Em Berlim, o chanceler alemão, Friedrich Merz, foi um dos primeiros líderes a se pronunciar publicamente. Em mensagem nas redes sociais, ele classificou o acordo como um marco da política comercial europeia e um sinal de soberania estratégica, destacando que o entendimento amplia a capacidade de ação da União Europeia em um cenário global cada vez mais competitivo. Merz ressaltou o impacto econômico esperado para seu país e para o bloco, mas criticou a morosidade das tratativas, lembrando que foram necessários 25 anos de negociações até se chegar a esse ponto e defendendo que futuros acordos comerciais avancem em ritmo mais rápido.

A repercussão positiva também veio de Viena, mesmo com a Áustria tendo se posicionado formalmente contra o acordo durante a reunião de embaixadores. A ministra das Relações Exteriores, Beate Meinl-Reisinger, usou as redes sociais para celebrar a formação de uma maioria favorável entre os Estados-membros, afirmando estar emocionada com a perspectiva de assinatura do tratado. A chefe da diplomacia austríaca lamentou que seu próprio país não tenha apoiado a iniciativa, mas insistiu que a economia nacional, as empresas e a prosperidade europeia terão ganhos significativos com a abertura de mercado ao Mercosul. Ela defendeu que a Áustria aprofunde relações comerciais com outras regiões, citando a Índia como prioridade nas negociações de um acordo bilateral, e argumentou que a redefinição da ordem global exige que Europa e Áustria busquem novos parceiros estratégicos.

Se, de um lado, governos veem o tratado como ferramenta de competitividade e projeção geopolítica, de outro setores ligados ao campo mantêm forte resistência. O ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural da Polônia, Stefan Krajewski, confirmou que seu país esteve entre os que se opuseram ao acordo, ao lado de Áustria, França, Hungria e Irlanda. Segundo ele, se a Itália tivesse aderido ao bloco dos contrários, a aprovação teria sido bloqueada. Krajewski advertiu que a decisão trará consequências para toda a União Europeia e reiterou o compromisso de proteger os agricultores poloneses diante da perspectiva de maior concorrência com produtos vindos da América do Sul. Ele lembrou que o Parlamento polonês já discute mecanismos legais para resguardar os setores produtivos e prever compensações em caso de impactos negativos sobre o agronegócio local.

Enquanto governos avaliam riscos e benefícios políticos, a indústria europeia, em especial a automotiva, vê no acordo uma oportunidade concreta de expansão. Em comunicado, a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (Acea) classificou o apoio da maioria dos Estados-membros ao tratado com o Mercosul como um momento marcante e como sinal de que a Europa pretende manter uma economia forte, aberta e orientada para o comércio internacional. A entidade destaca que a assinatura deverá reduzir de forma significativa as tarifas aplicadas hoje sobre veículos produzidos na União Europeia, que podem chegar a 35% ao entrarem nos mercados de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Além da desoneração, fabricantes esperam a remoção de barreiras técnicas ao comércio entre os blocos e o fortalecimento de cadeias de suprimento de matérias-primas consideradas críticas para a indústria europeia. Diante desse cenário, a Acea apelou para que o Parlamento Europeu aprove o texto com rapidez, de modo que empresas de diferentes setores possam usufruir logo tanto das vantagens comerciais quanto dos ganhos estratégicos associados ao acordo.

Nos bastidores institucionais, o processo ainda passa por etapas sensíveis. De acordo com diplomatas e com a própria dinâmica da União Europeia, os embaixadores dos 27 países indicaram, na manhã desta sexta-feira, as posições de seus respectivos governos, mas cada capital precisa confirmar o voto por escrito até o fim da tarde, no horário de Bruxelas. Pelo critério da maioria qualificada, são necessários ao menos 15 países favoráveis que representem, juntos, 65% da população do bloco, requisito que, segundo relatos de fontes europeias, já foi atingido. Com a validação formal das posições nacionais, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ficará autorizada a viajar ao Paraguai para assinar politicamente o tratado com os integrantes do Mercosul, concluindo a etapa de negociação entre os dois blocos.

A entrada em vigor ainda dependerá do crivo político interno da própria União Europeia. Após a assinatura, o texto terá de ser analisado e aprovado pelo Parlamento Europeu, instância onde se concentram parte das críticas de eurodeputados ligados ao setor agrícola e a movimentos ambientalistas. Nos países que mantiveram reservas ao acordo, a expectativa é de pressão sobre representantes parlamentares para que tentem impor salvaguardas adicionais ou, em último caso, dificultem a ratificação. Já entre os defensores do tratado, prevalece o argumento de que a integração com o Mercosul consolida a posição global da Europa em meio à disputa comercial entre grandes potências, amplia mercados para bens industriais, cria condições de competição mais equilibrada com rivais extraeuropeus e oferece instrumentos de cooperação em temas como meio ambiente, sustentabilidade e regras de produção.

No centro da disputa política está um acordo que promete criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, ligando economias europeias altamente industrializadas a grandes exportadores de commodities agrícolas e minerais da América do Sul. A celebração de líderes como Friedrich Merz e Beate Meinl-Reisinger, o entusiasmo da indústria automotiva e a resistência de agricultores em países como Polônia, França e Irlanda são apresentados por diferentes atores às vésperas de uma decisão considerada histórica pelos envolvidos nas negociações.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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