Os bombardeios de Israel e tiroteios na Faixa de Gaza já mataram mais de 100 crianças desde o início de outubro do ano passado, quando foi assinada a trégua entre Israel e o Hamas. O número representa aproximadamente um menino ou menina mortos todos os dias durante o cessar-fogo, conforme informou o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Elder, em vídeo publicado nesta terça-feira.
O acordo de cessar-fogo foi assinado em 9 de outubro, com intermediação dos Estados Unidos, entre o governo de Tel Aviv e o Hamas. Desde então, o Unicef registrou relatos de pelo menos 60 meninos e 40 meninas mortos na Faixa de Gaza. Esse total de 100 reflete apenas os incidentes com detalhes suficientes para registro, o que sugere que o número real de crianças palestinas mortas é maior, com centenas de outras feridas.
Falando diretamente de Gaza, Elder aparece ao lado do menino Abid Al Rahman, de 9 anos, atingido por estilhaços de bomba em Khan Younis, no sul do território palestino. “Eu estava colhendo lenha e plásticos quando um míssil caiu perto de mim e um estilhaço grosso voou direto para o meu olho. Agora não consigo mais enxergar com meu olho”, relatou Abid, que ainda tem o fragmento de metal alojado no rosto.
A região segue sob severas restrições de acesso a suprimentos médicos, gás de cozinha, combustível e peças para conserto de sistemas de água e esgoto, denuncia o Unicef. A organização reconhece progressos para a população durante o cessar-fogo, como a expansão de serviços de saúde, incluindo imunização, e reparos em encanamentos de água e estações de esgoto. Esses avanços ocorreram graças à engenhosidade palestina, e não à entrada de peças de reposição permitidas. Na área da nutrição, foram adicionados mais de 70 centros de distribuição de alimentos em Gaza, o que contribuiu para a diminuição da fome.
As Forças Armadas de Israel afirmam que grupos palestinos violam o cessar-fogo, justificando respostas militares. O Hamas acusa Israel de prosseguir com uma política de genocídio contra o povo palestino, especialmente por meio do bloqueio à entrada de ajuda humanitária.
No final de dezembro, o parlamento de Israel aprovou uma lei proibindo a atuação de 37 organizações de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, incluindo a Médicos Sem Fronteiras (MSF). O motivo alegado é a recusa dessas entidades em fornecer dados de funcionários palestinos ao governo de Benjamin Netanyahu. A MSF argumenta que isso viola a privacidade dos trabalhadores e os expõe a riscos, especialmente após 15 colegas terem sido mortos pelas forças israelenses.
Israel determinou, no mês passado, o corte de água, eletricidade, energia e comunicações nas instalações dessas organizações, que incluem a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA). A medida levou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a alertar o governo Netanyahu de que a organização poderá levar Israel à Corte Internacional de Justiça devido a essas ações.
A UNRWA já havia sido proibida de atuar nos territórios ocupados por Israel em outubro de 2024. O governo israelense alega que a agência emprega militantes do Hamas, mas não forneceu provas a uma investigação independente. O comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, condenou as novas medidas como parte de um padrão preocupante de desrespeito ao direito internacional humanitário e de entraves crescentes às operações de ajuda.
O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, rebateu as críticas, acusando a ONU de tentar intimidar Israel com ameaças de tribunais internacionais. “Em vez de abordar a questão grave do envolvimento de funcionários da UNRWA em terrorismo, a ONU está tentando encobrir crimes cometidos pela UNRWA, que atua como subsidiária do Hamas.”
