Os protestos que eclodiram no Irã em 28 de dezembro, inicialmente motivados pelo aumento dos preços dos alimentos e pela desvalorização do rial iraniano em meio a uma crise econômica generalizada, enfrentam agora uma repressão que contido amplamente as manifestações. Segundo grupos de direitos humanos e moradores, a onda de demonstrações que se espalhou por Teerã e outras grandes cidades a partir de 8 de janeiro diminuiu significativamente após a resposta violenta do governo.
A repressão iraniana atingiu proporções alarmantes. Organizações de direitos humanos, como a HRANA baseada nos EUA, contabilizam pelo menos 2.677 mortes até o momento, incluindo 2.478 manifestantes e 163 pessoas ligadas ao governo, superando qualquer episódio anterior de agitação enfrentado pelo regime desde a Revolução Islâmica de 1979. Estimativas sugerem que o número real de vítimas pode ser significativamente superior. Mais de 19 mil pessoas foram presas em conexão com os protestos.
Para conter os manifestantes, as autoridades iranianas implementaram medidas de segurança extremas. Impuseram um bloqueio quase total das comunicações que permanece em grande parte do país, ergueram barreiras de concreto ao redor dos centros das cidades, ordenaram a evacuação dos dormitórios universitários e utilizaram força excessiva contra os manifestantes. Vídeos verificados pela Reuters mostram dezenas de corpos em uma instituição médico-legal de Teerã, evidenciando a escala da violência.
O cenário nas ruas indica o sucesso relativo dessa repressão. O grupo de direitos curdo-iraniano Hengaw informou que não houve reunião de protesto desde domingo, afirmando que o ambiente de segurança continua altamente restritivo. Moradores de Teerã relataram que a capital permanecia tranquila, com drones sobrevoando a cidade e nenhum sinal de manifestação visível. Fontes independentes do Hengaw confirmaram uma forte presença militar e de segurança não apenas em locais onde protestos ocorreram anteriormente, mas também em várias áreas que não sofreram grandes manifestações.
A dimensão internacional do conflito intensificou-se com ameaças cruzadas entre Washington e Teerã. O presidente Donald Trump sinalizou repetidamente que os Estados Unidos poderiam intervir militarmente caso o Irã continuasse matando manifestantes, declarando em 10 de janeiro que os EUA estão prontos para ajudar e, três dias depois, afirmando que ajuda está a caminho. Na terça-feira (13), Trump advertiu sobre medidas muito duras caso execuções ocorressem. A Casa Branca informou que Trump está monitorando de perto a situação e que o presidente e sua equipe alertaram Teerã sobre graves consequências se as mortes continuassem.
Em resposta, o governo iraniano elevou o tom das ameaças. O Conselho de Segurança Nacional iraniano afirmou que qualquer interferência externa nos assuntos domésticos terá uma resposta proporcional e devastadora, com relatos indicando que o Irã ameaçou bombardear bases militares americanas no Oriente Médio. Após uma ameaça de retaliação iraniana na quarta-feira, o governo dos Estados Unidos ordenou a retirada de militares de bases na região.
A diplomacia regional ganhou momentum diante da escalada. Aliados dos EUA, incluindo Arábia Saudita e Catar, conduziram intensa diplomacia com Washington para evitar um ataque, alertando sobre as consequências para a região que acabariam afetando os próprios Estados Unidos. Essas gestões diplomáticas surtiram efeito: segundo Trump, 800 execuções programadas foram interrompidas, e a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o presidente está mantendo todas as suas opções sobre a mesa.
O governo iraniano justifica a repressão alegando que terroristas organizados infiltraram-se nos protestos, dispararam contra a polícia e outros manifestantes com objetivo de provocar uma intervenção militar estrangeira. Autoridades iranianas acusam inimigos estrangeiros de fomentar os distúrbios e armar pessoas classificadas como terroristas. O presidente iraniano Pezeshkian disse a Putin que os Estados Unidos e Israel tiveram papel direto nos distúrbios, conforme informado pela mídia estatal.
A ONU pediu investigações independentes sobre todas as mortes e manifestou-se contra a possível aplicação da pena de morte para manifestantes, caracterizando a situação como explosiva. O Conselho de Segurança da ONU debateu a crise enquanto o impasse entre Washington e Teerã continua, com a comunidade internacional observando atentamente os desenvolvimentos que moldam um dos maiores desafios enfrentados pelo regime clerical iraniano em décadas.
