Oito em cada dez brasileiros com filhos em idade escolar pretendem reaproveitar materiais do ano passado na volta às aulas de 2026. O dado, resultado de uma pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, indica uma mudança de comportamento que combina aperto no orçamento com planejamento mais criterioso das famílias. Em vez de encarar o reaproveitamento como sinal de desespero, o presidente do instituto, Renato Meirelles, afirma que os pais estão se tornando mais “profissionais” na gestão do dinheiro curto, organizando as contas com antecedência e definindo prioridades.
A busca por economia se consolidou como eixo central das decisões de consumo neste início de ano letivo. Mesmo assim, o gasto escolar continua sendo um dos principais fatores de desgaste financeiro no orçamento doméstico. Entre as despesas mais citadas pelos entrevistados aparecem material escolar, uniforme e livros didáticos, que formam o trio de maior pressão sobre o bolso. Quase 9 em cada 10 responsáveis dizem que as compras de volta às aulas afetam o orçamento da família, com impacto ainda mais pesado entre os lares de menor renda. Nas classes D e E, mais da metade avalia que o impacto é muito grande, enquanto entre as classes A e B esse sentimento, embora relevante, é bem menos intenso.
O peso desses gastos transborda para outras áreas da vida cotidiana. A ampla maioria dos entrevistados afirma que o preço do material escolar interfere em decisões ligadas ao lazer, à alimentação e até ao pagamento de contas do mês. Em muitos casos, a ida à papelaria ou à loja de uniformes significa adiar um passeio em família, reduzir saídas aos fins de semana ou replanejar compras no supermercado. Quando os pais se deparam com valores acima do esperado, a reação mais comum é a substituição do produto: dois em cada três consumidores optam por versões de marcas mais baratas, numa tentativa de ajustar desejo das crianças, exigências da escola e limites do orçamento.
Nesse cenário, o reaproveitamento de itens do ano anterior ganha força como estratégia cotidiana. Mochilas, estojos e cadernos parcialmente usados são avaliados com mais cuidado e, se ainda estiverem em boas condições, permanecem em uso por mais um ciclo. A lógica é simples: cada produto que pode ser reutilizado representa uma pequena folga nas contas. Especialistas em consumo e educação financeira apontam que esse comportamento, somado ao planejamento antecipado e à pesquisa de preços, ajuda a distribuir melhor os gastos ao longo dos meses, evitando concentração de despesas em janeiro e fevereiro.
As escolhas sobre onde comprar também evidenciam um consumidor mais atento. As lojas físicas seguem na liderança como principal canal de compra para quase metade dos brasileiros, em parte pela possibilidade de comparar qualidade, examinar os produtos de perto e negociar descontos no balcão. Ao mesmo tempo, cresce o consumo híbrido: parcela expressiva das famílias afirma que pretende combinar compras em estabelecimentos presenciais e plataformas online, aproveitando promoções na internet sem abrir mão da ida à papelaria de bairro. Uma minoria, mas ainda assim um grupo relevante, planeja concentrar as compras exclusivamente no comércio eletrônico, impulsionada pela comodidade e pela expectativa de preços mais competitivos.
Por trás dos números, histórias de adaptação se repetem em diferentes regiões e faixas de renda. Há famílias que iniciam o planejamento já em dezembro, direcionando parte do 13º salário às despesas escolares e parcelando o restante no cartão. Outras fracionam as compras ao longo de semanas, priorizando primeiro uniformes e livros, para depois completar a lista de materiais menores. Em comum, está a percepção de que a volta às aulas deixou de ser um evento pontual e passou a exigir organização contínua, quase como uma “operação financeira” anual.
A pesquisa também indica que o esforço de economia não exclui a preocupação com a experiência das crianças. Em muitos lares, os filhos participam da escolha de pelo menos parte dos itens, como cadernos temáticos e estojos, enquanto os pais definem onde é possível cortar custos com reaproveitamento ou troca de marcas. O desafio, relatado por responsáveis e especialistas, é ajustar o aspecto afetivo e simbólico da volta às aulas à necessidade de manter as contas em dia. Na prática, isso se traduz em concessões de ambos os lados: as crianças abrem mão de alguns desejos e os adultos preservam, dentro do possível, pequenos gestos que marcam o início de mais um ano letivo.
Para analistas, o movimento captado pela pesquisa está ligado à incorporação da educação financeira ao dia a dia, mesmo entre quem tem pouca margem de manobra no orçamento. Ao transformar o reaproveitamento em regra, substituir produtos caros e fazer escolhas mais racionais de consumo, as famílias mostram que, diante da alta dos preços e da renda limitada, a resposta não é apenas apertar o cinto, mas planejar com mais cuidado cada passo da volta às aulas.
